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por Marcelo Teixeira de Jesus    Neste ensaio pretendo provar que indivíduo clonado não é o mesmo que aquele que lhe forneceu a(s) célu...

Clonagem humana, princípio de individuação e identidade humana são incompatíveis?

por Marcelo Teixeira de Jesus 

  Neste ensaio pretendo provar que indivíduo clonado não é o mesmo que aquele que lhe forneceu a(s) célula(s) necessária(s) para o seu desenvolvimento, para isso usarei o princípio de individuação para provar a independência desses indivíduos e apresentarei exemplos que justifiquem a tese da independência dos indivíduos envolvidos, ou seja, que ambos não podem ser o mesmo indivíduo. Para melhor compreensão desse texto usarei o que chamarei de uma linguagem técnica para esse texto. Chamarei de ‘indivíduo matriz’ aquele que cedeu a(s) célula(s) necessária(s) para a formação do outro ser, e chamarei de ‘indivíduo clonado’ aquele que recebeu a(s) célula(s) necessária(s) para sua formação como indivíduo.
            
         Como pretendo provar que ‘indivíduo matriz’ e ‘indivíduo clonado’ não são o mesmo utilizando o princípio de individuação é necessário uma breve exposição de o que seja esse princípio. O princípio de individuação nos diz que não podem existir duas coisas idênticas no mundo, sejam elas: objetos, pessoas, plantas, carros, qualquer coisa mesmo. Dois objetos quaisquer por mais idênticos que sejam terão características próprias suas, particulares, que se procurarmos bem não encontraremos no outro objeto, e quando falamos qualquer característica mesmo, pode ser um pequeno arranhão que não percebemos ‘a olho nu’. Contudo, para provar que ‘indivíduo matriz’ e ‘indivíduo clonado’ não são o mesmo, não pretendo me deter nesses pequenos detalhes que o campo filosófico se detém, pretendo me deter na questão em que cada indivíduo tomaria em determinada situação. Acredito que provando que cada indivíduo tomando uma decisão diferente em determinada situação seria uma comprovação mais forte da independência desses indivíduos do que uma simples característica particular que um indivíduo tivesse e outro não. Contudo tal característica já comprovaria a independência dos indivíduos envolvidos na questão.

O que é clonagem?
            
               A palavra clonagem pode parecer um termo recente, mas ele já é utilizado desde o início do século XX. O termo foi criado pelo botânico Herbert J. Webber no ano de 1.908 enquanto realizava pesquisas no Departamento de Agricultura dos EUA. A palavra ‘clone’ tem origem da palavra grega ‘klón’, cujo significado é broto vegetal.
            
              Clonagem é basicamente um conjunto de células, moléculas ou organismos descendentes de uma célula e que são geneticamente idênticos à célula original. Clonagem é um processo de reprodução assexuada cujo resultado são indivíduos geneticamente iguais a partir de uma célula-mãe. No caso dos seres humanos os clones são gêmeos univitelinos, ou seja, gêmeos idênticos.

Clonagem humana
            
             A questão sobre a clonagem humana vem sida muito debatida nos últimos anos, tanto no meio científica quanto no meio social em geral. Mas a questão que proponho é para que serviria a clonagem de um ser humano nos dias atuais? Qual a finalidade de se clonar um ser humano? Não quero me deter aqui a questão de que se deva deter ou não o conhecimento, algo que acredito que se faça necessário de se deter o conhecimento sobre a clonagem, contudo, não acredito que por determos o conhecimento devamos colocá-lo em prática, acredito que deva haver preceitos éticos que devam regulamentar a prática do conhecimento humano, ou seja, não é porque eu detenha tal conhecimento que o deva colocá-lo em prática.
            
                Nos dias atuais não vislumbro para que serviria a clonagem humana, pois a espécie humana não está ameaçada de extinção, pelo contrário nos reproduzimos cada vez mais. Se a alternativa para se clonar um ser humano for à ameaça de extinção essa questão estaria nula. Mas, se a questão for produzir um ser humano mais evoluído, ou digamos sob medida, por exemplo, como um terno, estaríamos ultrapassando o campo da ética. A ciência no decorrer da historia da humanidade já nos trouxe vários benefícios, contudo quando ela é utilizada de maneira equivocada (errada), ela pode acarretar muitas mazelas. Exemplos de uma má utilização da ciência não faltam. Bombas nucleares, armas de destruição em massa, esses são alguns exemplos do mau uso da ciência pelo homem. O mau uso consciente da ciência pelo homem deveria ser considerado antiético, pois se cometer um erro de maneira consciente para com outro indivíduo é crime, por que não devemos rechaçar o mau uso da ciência?
            
               As descobertas científicas deveriam servir para o benefício da espécie e do planeta em que vivemos, mas isso não é o que nos deparamos no nosso dia-a-dia. Pois sabemos que o desenvolvimento industrial vem destruindo a vida na terra e ameaçando várias espécies de extinção. Costumamos dizer que o homem é um ser racional e inteligente, mas muitas atitudes humanas não parecem ser racionais e inteligentes.

Distinguindo indivíduo ‘clonado’ e indivíduo ‘matriz’
        
        Imaginemos uma sociedade cujo desenvolvimento técnico-científico seja altamente desenvolvido e que se possam fazer inclusive cirurgias intrauterinas. Aceitando o fato de que tal sociedade é possível e que tais cirurgias também, podemos aceitar o fato de que seja possível a coleta de material genético necessário para a realização de uma clonagem humana. Após a retirada do material genético necessário para a clonagem é feita a fertilização do óvulo, teríamos de achar uma barriga-de-aluguel para o desenvolvimento do feto. Realizados todos esses fatos, basta apenas esperarmos o nascimento dessa criança, que será geneticamente idêntica à criança que doara o material genético quando era apenas um feto. Essas crianças nascerão apenas com algumas semanas de diferença.
            
                Digamos que após o nascimento dessas crianças seus pais biológicos venham a criar os dois. Que eles lhe deem todos os cuidados, carinho, educação e afeto sem distinção, sem preconceito algum. Esses dois indivíduos são observavelmente idênticos, altura, porte físico, características gerais idênticas, ou seja, não conseguimos distinguir qual é qual. Sabendo que ambos são tão idênticos, que ambos têm o mesmo material genético e que eles têm uma ligação intrauterina tão íntima, pois o material genético necessário para a formação de um deles foi retirado quando o outro era apenas um feto, sabendo disso, podemos afirmar que ambos são apenas um? Aceitando que sim, isso acarretaria que deveríamos aceitar que ambos tomariam sempre a mesma decisão em qualquer situação em que pudessem estar envolvidos, quando me refiro a qualquer situação é qualquer situação mesmo, por mais banal que pareça ser, por exemplo, um simples corte de cabelo, se ambos indivíduos estiverem em uma barbearia, ambos deverão escolher o mesmo corte de cabelo, pois se isso não ocorrer fica comprovado que eles não podem ser o mesmo indivíduo, pois tomaram decisões distintas sobre o mesmo fato, e um indivíduo não toma duas decisões em um fato em que é necessário que ele tome apenas uma decisão, por exemplo, um indivíduo não decide atravessar e ao mesmo tempo não atravessar uma rua, ou ele atravessa ou não atravessa uma rua, é incompatível que um indivíduo realize esses dois atos ao mesmo instante. Acredito que essa é uma forma simples de comprovar de que se tratam de indivíduos distintos, cada qual com sua personalidade, valores e crenças pessoais. Contudo não comprovamos que o indivíduo clonado tem uma identidade humana.

O indivíduo ‘clonado’ tem uma identidade humana?
            
                Digamos que o indivíduo ‘clonado’ não possa ser um ser humano, pois nem todos os passos do processo de surgimento da vida humana não foram dados, ou melhor, dizendo não foi um processo tradicional de fecundação humana. Pois houve uma manipulação laboratorial para que seu processo de desenvolvimento ocorresse. Aceitando o fato que ele não pudesse ser considerado um ser humano pelo fato de sua ‘origem’ se dar de uma manipulação de laboratório, estaríamos afirmando que todo ser concebido através de manipulação genética não poderia ser considerado um ser humano.
           
         Aceitando o fato de que seres que nasceram de manipulações genéticas não teriam uma identidade humana nos colocaria em um beco-sem-saída, pois muitos indivíduos cuja identidade humana é reconhecida deveriam deixar de serem considerados seres humanos, esse é o caso dos bebês de provetas, da inseminação artificial, pois os casos citados têm reconhecidamente uma identidade humana. No caso da clonagem humana, esse indivíduo também deve ter uma identidade humana, pois se trata de um caso idêntico dos citados acima.
   


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por Marcelo Teixeira de Jesus Para São Tomás de Aquino, a existência de Deus não é evidente, contudo, a existência de Deus é demonstrável...

É possível a segunda via, de São Tomás de Aquino, provar que a Teoria do Big Bang pode nos remeter a primeira via?

por Marcelo Teixeira de Jesus
Para São Tomás de Aquino, a existência de Deus não é evidente, contudo, a existência de Deus é demonstrável. E essa demonstração se dá a partir de argumentos a posteriori, ou seja, partindo do efeito à causa. Para provar que é demonstrável que Deus existe, Tomas de Aquino faz uso de cinco argumentos para provar isso, esse conjunto de argumentos é chamado de “As cinco vias”. A saber: 1ª via, movente imóvel; 2ª via, causa incausada; 3ª via, contingente e necessário; 4ª via, graus de perfeição; 5ª via, finalidade (argumento teleológico). As três primeiras vias são conhecidas como os argumentos cosmológicos de Tomás de Aquino, esses argumentos podem ser lidos e interpretados separadamente. Para Aquino, a 1ª via, a da mudança (movente imóvel), é a que melhor corrobora com a evidência da existência de Deus. Proponho nesse trabalho uma leitura diferente. Pretendo partir da segunda via, a da causa não-causada, para depois justificar a primeira via, a da mudança, essa inversão só é possível pela independência dos argumentos. Proponho essa mudança para objetar ao cientista que afirma que o universo e as coisas surgiram a partir do big bang.
Dizer que Deus é uma causa não-causada não é afirmar que Deus seja uma causa causada por si, pois isso poderia nos levar a imaginar que a causa é anterior a Deus, e Deus não é uma causa. Quando dizemos que Deus é uma causa não-causada estamos querendo dizer que Deus é um existir na eternidade. Ou seja: Ele sempre existiu, e existirá.
Analisaremos a segunda via segundo o esquema de argumentação de William Lane Craig. A segunda via, de São Tomas de Aquino¹:
1. As coisas têm causa.
Quando olhamos o mundo ao nosso redor podemos perceber a veracidade desse enunciado. Quando vemos uma árvore e perguntamos como ela surgiu, e investigamos a sua causa, descobrimos que alguém a plantou, ou seja, ela não surgiu do nada, houve uma causa para o seu surgimento. Nesse caso uma ação humana.
2. Tudo que tem causa, ou é auto-causado ou é causado por outro.
Não nos parece que as coisas podem se auto-causar, logo, as coisas que têm causa são causadas por outras, ou seja, não há coisas no mundo que sejam auto-causadas. Assim antecipamos a premissa três.
3. Nada pode ser auto-casado:
a. Para ser auto-causado teria de ser anterior a si próprio.
Não parece logicamente possível algo ser anterior a si mesmo. Por exemplo, ninguém em sã consciência diria que a causa de uma árvore é a própria árvore, pois isso seria afirmar que a árvore é anterior à sua própria existência, e isso não parece fazer sentido.
b. Mas isto é autocontraditório e, portanto, impossível.
É contraditório afirmar que a causa da árvore é a própria árvore.
c. Portanto nada é auto-causado.
Nada não pode ser causa de si mesmo.
4. A série das coisas causadas por outras não pode ser infinita.
Quando fazemos uma regressão das causas não podemos fazer uma regressão ao infinito, pois sendo assim não encontraríamos uma primeira causa.
a. Em uma série essencialmente subordinada, a existência de causas subsequentes depende de uma primeira causa.
b. Em uma série infinita, não há primeira causa.
c. Portanto não podem existir também causas subsequentes.
d. Mas isto contradiz (1): as coisas tem causa.
e. Portanto as coisas não são causadas por uma série infinita de coisas essencialmente subordinadas sendo causadas por outras.
E uma série essencialmente subordinada, causas intermediárias não têm eficácia causal própria, ou seja, uma causa depende da outra para ser causa de outra, o que na prática seria o mesmo que dizer que um indivíduo para se tornar pai precisaria efetivamente de seu genitor. Mas isso não nos parece verdadeiro, pois não precisamos da participação de nossos genitores para se tornar pai ou mãe, não é nem ao menos necessário que eles estejam vivos, ou que ao menos se os tenha conhecidos. Não precisamos conhecer nossos genitores para sermos genitores. O que é necessário é que tivemos genitores, pois esses são a causa da nossa existência, e essa série de acontecimentos não é essencial e nem subordinada, na verdade ela é acidental e ordenada. Ela, a série de coisas causadas, é acidental porque poderia ser de outro modo, o meu pai poderia não ter filhos, ele ter filhos é contingente; e essa série acidental é ordenada porque respeita a uma ordenação de fatos ocorridos. A existência do meu pai deve ser anterior à minha, e a minha existência deve ser anterior à existência dos meus filhos e filhas, essa anterioridade dos pais em relação aos filhos é que é necessária. Mas, dizer que essa relação é necessária não é admitir que a relação pai e filho tenham uma dependência necessária para o surgimento de um novo ser, o que é necessário aqui é apenas a anterioridade de um em relação ao outro.
5. Portanto a série de coisas causadas por outras tem de ser finita e terminar em uma primeira causa não-causada de todas as coisas; a esta todos chamam “Deus”.
A crítica do cientista² repousa na conclusão do argumento, pois esse diz que é arbitrário escolher Deus como causa de todas as coisas, por que não parar no big bang, por que escolher Deus?
O cientista não tem o porquê atacar as premissas do argumento. Pois, nenhum cientista afirmaria que as coisas não têm causa. Logo, o cientista não tem motivos para objetar essa premissa. Na segunda premissa ele poderia contestar que algo é auto-causado, mas essa objeção vai à tona, tendo em vista que na premissa três Aquino afirma que nada pode ser auto-causado. Sendo assim ele, o cientista, aceita as premissas dois e três. A premissa quatro que diz: “A série das coisas causadas por outras não pode ser infinita”, é aceita pelo cientista. O cientista quando faz um estudo retroativo, assim como São Tomás de Aquino, acredita que deve haver uma primeira causa das coisas. O que o cientista discorda é que essa primeira causa seja Deus. Para ele, o cientista, a primeira causa é o big bang. Contudo, o que o cientista faz é fazer o mesmo que São Tomás de Aquino, ele faz uma escolha arbitrária, pois ele para no big bang, afirmando que esse fenômeno é a causa do universo. Ao afirmar que o big bang é a primeira causa do universo, ele desconsidera que esse fenômeno é na verdade o primeiro movimento das coisas criadas por Deus. Na verdade se analisarmos com mais profundidade o cientista está afirmando a primeira via de Tomás de Aquino que nos diz: As coisas estão mudando. O Big bang é uma mudança.
O big bang é na verdade o primeiro movimento do universo, a expansão de uma massa concentrada que dá origem ao universo, mas por que acontece esse primeiro movimento? Por que essa massa começa a se expandir? O cientista não tem resposta para isso. Logo, se o cientista diz que o argumento de São Tomás seria ad infinitum se ele não escolhesse arbitrariamente a Deus, ele se esquece de que cabe a ele, cientista, explicar o porquê essa massa começou a se expandir e a formar o universo. O que pode nos pode parecer mais claro, que essa massa concentrada começou a se expandir sem motivo algum, ou que algo, ou alguma coisa a causou? Acredito que ninguém afirmaria que algo começou sem motivo algum. Logo, de ter havido algo que causou a esse primeiro movimento, o big bang, e a esse causador nós chamamos de Deus. A essa causa que nós chamamos de Deus, que é a causa incausada, um ser que é puro existir, um ser ao qual nós denominados atributos, mas cuja essência não se tem acesso, e os atributos que lhe damos não dizem o que ele realmente é. Esses atributos dados por nós servem apenas para que cognitivamente possamos compreender a sua existência.
O que o cientista pretende é criar um espantalho para poder atacar, mas ao criar esse espantalho, ele está criando o seu próprio espantalho, e não se dá conta disso, e não tem como ele resolver o problema que ele mesmo criou para si; para ele resolver a esse problema, ele deve admitir a existência de Deus, mas isso ele não fará. Logo, a tentativa do cientista de tentar provar que Deus não existe fazendo uso da teoria big bang nos remete a primeira via de Tomás de Aquino que diz que as coisas estão mudando; ou seja, o big bang não é a causa do universo, e sim o primeiro movimento Divino.   
Notas:
1 A formalização proposta por Craig está em itálico, o que não está em itálico são comentários do autor.

2 Cientista: sujeito universal que acredita que a teoria do big bang é a causa do surgimento do universo.

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                                 Marcelo Teixeira de Jesus               Reificação é um conceito do início do século XX, esse conceito...

Podemos Reconhecer a Reificação na Sociedade Atual?

                              Marcelo Teixeira de Jesus

             Reificação é um conceito do início do século XX, esse conceito foi desenvolvido pelo pensador Georg Lukács. Reificação significa tornar algo em coisa. O conceito tem origem na palavra latina res, que significa coisa. O tornar coisa aqui deve ser compreendido, como Lukács pretendia, que todas as relações humanas, no sistema capitalista, são vistas como meros objetivos a serem alcançados, ou seja, as relações humanas são meras “coisas”. Melhor dizendo as relações humanas são relações coisificadas, as relações humanas são realizadas em vista de objetivos. Para Lukács, todas as relações humanas são relações reificadas. Isso inclui relações amorosas, afetivas, de entretenimento, todas as relações interpessoais são realizadas em vista de objetivos. Não há relação interpessoal que não seja reificada, para Lukács. Por que Lukács acredita que todas as nossas relações são reificadas?

            O sistema capitalista tende a dizer como as nossas relações devem ser, como devemos nos relacionar, quais as roupas devemos usar para sermos aceitos em sociedade, como devemos agir, qual o modelo ideal de pessoa; o sistema capitalista não quer apenas que consumamos produtos, ele quer nos dizer como devemos ser. Dessa forma nossas relações se tornam “coisas”. Nossos projetos, relações e objetivos de vida são pautados em busca desse “ideal”. E qual é esse ideal? É um ideal inacessível, que está em freqüente mudança, pois, essa mutabilidade desse “ideal” é necessária, pois dessa forma o sistema está sempre se renovando. Mas se todas as nossas relações interpessoais são reificadas como podemos ter acesso a elas?

            Acredito que nem todas as nossas relações são reificadas, acredito que a categoria de reconhecimento não é reificada. Para ser mais exato me refiro à primeira fase de reconhecimento que Axel Honneth trata em seu livro intitulado Luta por Reconhecimento. Em Luta por Reconhecimento, Honneth atualiza a categoria de reconhecimento do filósofo alemão Gerg W. F. Hegel. A categoria de reconhecimento em Hegel trata, basicamente, da relação dicotômica do opressor e do oprimido no curso da história. Na antiguidade essa relação pode ser vista na disputa do senhor e do escravo, na idade média na relação do senhor feudal e do seu servo, e na época de Hegel nos primórdios do capitalismo no confronto da burguesia e do proletariado, classe que começava a surgir. Na atualidade esse conflito não se dá apenas entre dois grupos, esse conflito se dá na sociedade civil, que é composta por vários grupos sociais. E esses grupos sociais têm interesses diversos, e todos querem que seus interesses sejam reconhecidos pela sociedade.

            Em outras épocas históricas não havia uma diversidade social tão vasta e uma gama de reivindicações tão grande. Em outras épocas históricas o que era reconhecido era apenas os direitos dos dominadores, os direitos desses contemplavam, ou deveriam contemplar, a todos os membros da sociedade. Devido à diversidade de grupos sociais na atualidade, os direitos de alguns não podem contemplar a toda a sociedade, por isso a categoria de reconhecimento de Hegel, segundo Honneth, deve ser atualizada.

            Honneth nos apresenta a categoria de reconhecimento dividida em três dimensões distintas: i) amor, ii) direito e iii) estima social (ou solidariedade). Acredito que a primeira dimensão, a do amor, se for bem desenvolvida no sujeito pode fazer com que esse possa reconhecer as relações reificadas do sistema capitalista. Refiro-me a dimensão do amor porque Lukács nos diz que todas as nossas relações, no sistema capitalista, são relações reificadas, inclusive relações afetivas, por isso, acredito que o bom desenvolvimento da dimensão do amor da categoria de reconhecimento pode fazer com que o sujeito possa reconhecer as relações reificadas; ou seja, acredito que nem todas as relações do sistema capitalista são relações reificadas.

            A dimensão do amor, segundo Honneth, está ligada com a infância dos sujeitos. Não diria apenas com a sua infância, mas essa relação é anterior ao nosso nascimento, ela começa a se dar quando ainda estamos nos formando no útero de nossas mães; pois uma criança que já é amada e recebe todos os devidos cuidados, tais como pré-natal e outros cuidados médicos, antes mesmo de seu nascimento, deverá receber muito amor, carinho e cuidados após seu nascimento.

            No primeiro estágio da dimensão do amor há um vínculo de ligação muito íntimo entre a mãe e seu bebê; há nessa relação, como diz Winnicott, uma ligação simbiótica, onde o bebê é dependente da mãe, mas a mãe não é um sujeito independente do bebê, ela se vê ligada dependente ao bebê, pois só assim ela se reconhece como mãe. A dependência é mutua. Contudo, ao afirmar que a dependência é mutua, deve-se deixar caro que a responsabilidade não é mutua, a responsabilidade pelo bem estar e desenvolvimento da criança é de responsabilidade de seus pais. Na ligação simbiótica o bebê é totalmente dependente da mãe. Por esse motivo é importante que se tenha um cuidado especial com o bebê, dando-lhe amor e carinho, amamentação correta, visando o seu desenvolvimento físico e emocional. Nesse período a mãe só se reconhece mãe devido ao seu vínculo com o bebê e o se reconhece como um “ser” amado pelos cuidados empreendidos pela mãe. Nessa fase do desenvolvimento o bebê não se vê ainda como um ser independente de sua mãe. Quando se diz que o bebê não se vê como um ser independente da mãe, não se está afirmando que ele se percebe como um ser depende de sua mãe no sentido que ele dependa dela para que ela realize as atividades básicas para manter a sua vida e bem estar, não, se está afirmando que o bebê não distingue a sua mãe como um outro ser, ele a vê como uma espécie de sua extensão, como se os dois fossem o mesmo ser, por isso que se diz ligação simbiótica.

            O estágio seguinte à ligação simbiótica é chamado de agressividade ou destrutivo É nesse estágio que a criança dá seus primeiros passos para a construção de sua identidade. Esse estágio é chamado de agressividade porque há um afastamento brusco da mãe com o seu bebê, esse, o bebê, em um primeiro momento não compreende esse afastamento da mãe. Mas, é esse afastamento da mãe que faz o bebê perceber que há um mundo à sua volta, se não houvesse esse afastamento o bebê não teria acesso a esse mundo. Logo, esse afastamento brusco da mãe, que é agressivo ao bebê, se faz necessário para o seu desenvolvimento. Esse afastamento é o que desencadeia a fase dos objetos ou fenômenos transicionais.

            Como o próprio nome sugere esse é um período de transição. Essa transição se dá em duas etapas, na primeira etapa a criança elege certos objetos que possam suprir esse afastamento brusco da mãe. O objeto aqui pode ser qualquer coisa, desde um bicho de pelúcia, a simples orelha de um bicho de pelúcia, o objeto não é necessariamente algo inteiro, pode ser apenas parte do todo. Esses objetos passam a ter um caráter afetivo e ajudam a criança a suprir a ausência da mãe. O uso de objetos faz com que a criança possa ir à segunda fase de estágio de transição que é chamado de estar só sem medo. Os objetos eleitos peã criança para suprir a ausência da mãe, faz com que a criança aprenda a viver só no mundo exterior. Esses objetos são importantes para o desenvolvimento psíco-motor da criança, pois sem esse desenvolvimento o bebê não desenvolverá o chamado amor maduro, que é o último estágio da dimensão amorosa ou afetiva.

            No chamado amor maduro a criança já é capaz de reconhecer o amor da mãe, mesmo ela estando longe, e a reconhece como um ser independente, e reconhecendo a mãe como um ser independente ela, a criança, se reconhece como um ser independente da mãe.

            O bom desenvolvimento da dimensão amorosa ou afetiva, do bebê pode auxiliá-lo, quando estiver inserido efetivamente na sociedade, a reconhecer relações reificantes, para que esse não se torne um ser reificado. Mas quando ele, efetivamente, estará inserido na sociedade? Quando for adulto e a começar a sua vida profissional, ou quando começar a freqüentar a creche ou a escola? Para Lukács, todas as relações na sociedade capitalista são reificantes. Logo, podemos afirmar que desde seu primeiro contato com a sociedade, o sujeito já está sofrendo a influência da reificação, sendo assim podemos afirmar que a reificação começa na escola.

            A escola, que deveria ser um local de aprendizagem, é um local que reifica o indivíduo. Pois a escola é apenas uma parte da sociedade, e como tal ela reflete também os interesses da sociedade. É na escola que certos valores, despercebidamente, são reproduzidos. Por exemplo, você só é visto como um sujeito socialmente aceito se usar um tênis de tal marca. Essa é uma atitude reificante que não considera o sujeito, mas o considera pelo o que ele usa. Não importa a sua inteligência ou a sua relação com seus pares e outros membros da sociedade, o que está em jogo é com que o sujeito faça parte do jogo; e fazer parte do jogo é ser um sujeito reificado, que aceita as regras do mercado que diz: que você será um sujeito melhor se usar o tênis tal, de tal marca, caso contrário, você não é aceito. Essas regras de mercado tende a ter um caráter universal, e são cruéis, principalmente com as crianças, tendo em vista que essas não têm maturidade suficiente para compreender o que está em jogo. Quando um pai ou uma mãe diz não para uma criança, essa muitas vezes não compreende o porquê desse não. A criança não recebendo o objeto de desejo, aceitável socialmente, pode se sentir menosprezado pelos seus colegas, tendo em vista que ele não tem o objeto aceitável, apenas um “símile”.

                   Se a criança tiver bem desenvolvida a primeira dimensão de reconhecimento talvez ela possa ignorar essas ações reificantes, negando dessa forma ser reificada e ser vista apenas como uma mera coisa, valorando-se como indivíduo, ou melhor, dizendo, se auto-valorando como sujeito. A expressão “se auto-valorando” tem um valor intrínseco ao sujeito, pois o sujeito se auto-valora, diz para si e sabe o valor que tem para si, negando dessa forma a reificação. Na sociedade capitalista, que é uma sociedade cujas relações tendem a ser reificadas, a auto-valoração só pode ter um caráter intrínseco ao sujeito, pois na sociedade capitalista o que é aceitável socialmente é a valoração mercadológica; ou seja, aquilo que o mercado diz que é aceitável. O sujeito que aceita a valoração mercadológica está se autorreificando; dessa forma o sujeito passa a ser visto como uma coisa pelos demais membros da sociedade. Contudo, não podemos afirmar que o sujeito que se autorreificou tem consciência que ele se tornou uma coisa, pois, ele faz parte de um sistema complexo que, talvez, não permita que ele tenha consciência do que esteja acontecendo consigo. Para que a reificação não tome conta de nossas vidas, devemos tentar eliminá-la já no seu estado embrionário, e onde estaria o embrião da reificação? Na escola.
            É na escola que iniciamos a nossa vida social e é na escola que começamos a ter contato com a reificação. Se não usamos o tênis tal não somos aceito, se usamos o tênis tal somos aceitos. Mas uma criança não está preparada emocionalmente para lidar com esse tipo de coisa, é nesse momento que deve aparecer as figuras da mãe e do pai, que serão importante para o desenvolvimento da criança, e para dizer como a criança deve lidar com essa situação. Aqui temos um ponto que pode ser decisivo para o futuro da criança frente a reificação, a atitude dos pais frente a uma situação que envolve o seu filho: comprar ou não comprar o tênis tal? Comprando o tênis tal deixarão o filho contente e ele será aceito facilmente pelos outros coleguinhas; contudo, podem estar dando o primeiro passo para que seu filho seja visto como uma”coisa” e não como sujeito, e podem estar facilitando dessa forma a sua autorreificação.Não comprando o tênis tal estarão dificultando a sua inserção no seu meio social; contudo, podem estar ensinando a criança uma grande lição, dizendo a eles que essas relações que se dão por aparência podem não ter um valor afetivo que deveriam ter, que as pessoas devem gostar dele pelo o que ele é, e não pelo o que ele possa ter ou aparentar ter ou ser.

            Esse primeiro “não” que os pais dizem à criança pode ser salutar nas suas futuras relações. Pois passando pela escola e se negando a ser reificado, chegando à idade adulta, talvez, esse sujeito possa perceber que a reificação está presente em toda a sociedade: no trabalho, em relações amorosas (nem todas, talvez), nas mídias e em geral. No trabalho podemos notar a reificação na impessoalidade no meio de trabalho e na uniformização dos empregados. Cada vez mais nos empregos os funcionários conversam menos entre si, as empresas criam cada vez modos de impedir o relacionamento entre seus funcionários: impedindo que colegas de serviço possam namorar, não contratando parentes de funcionários, fazendo divisórias entre uma mesa e outra. Outro meio de reificação encontrada pelas empresas é a uniformização de seus funcionários. O funcionário atualmente não usa apenas o uniforme da empresa, ele deve agir, ter uma postura tal, usar o corte de cabelo aceitável pela empresa, em certos casos estar bem barbeado; todas esses exemplos podem fazer com que o indivíduo passe a se sentir como uma “coisa” e perdendo assim a sua pessoalidade, tornando-se assim reificado. Mesmo superando o obstáculo de ser reificado na escola, recebendo apoio da mãe e do pai, o sujeito quando chega ao meio profissional pode ser reificado. Pois, quando chega ao meio profissional o sujeito se depara com aquela uniformidade da empresa onde os sujeitos se vestem igual, estão barbeados e usam o mesmo corte de cabelo (no caso dos homens), os sujeitos não conversando uns como os outros, ele pode achar que esse ambiente impessoal do trabalho seja normal, aceitando assim a reificação.

            Para que isso não acontece, a mãe e o pai desse sujeito devem prepará-lo desde novo para a vida. Ainda lá na escola quando a criança tiver seu primeiro contato com a reificação, sua mãe e seu pai devem lhe dizer que não é só na escola que a reificação está presente, ela pode estar presente em todas as nossas relações: trabalho, conversas informais. Temos que saber reconhecer a reificação, e ademais, temos que saber como não ser reificados. Só podemos reconhecer a reificação se tivermos um bom desenvolvimento da primeira dimensão do reconhecimento, amoroso ou afetivo, contudo afirmo aqui que essa dimensão do reconhecimento tem que estar sempre presente em nossas vidas, pois, não podemos viver sem amor e sem sermos afetuosos.     

Referências:
Honneth, Axel. Luta por Reconhecimento. Editora 34, 2ª edição (2009)
Honneth, Axel. Reificação: um estudo de teoria do reconhecimento.
Hegel, Georg W. F. Fenomenologia do Espírito. Editora Vozes, 9ª edição (2002)
Adorno, Theodor W. e Horkheimer, Max. Dialética do esclarecimento.  (Fonte: http://antivalor.vilabol.uol.com.br)

Lukács, Georg. História e consciência de classe. Editora Martins Fontes (2003)

        por M arcelo Teixeira de Jesus               O atual momento político no Brasil se mostra preocupante, pois vivemos uma crise ...

É possível a ascensão da extrema direita no cenário político brasileiro?

        por Marcelo Teixeira de Jesus

              O atual momento político no Brasil se mostra preocupante, pois vivemos uma crise de credibilidade dos poderes institucionais. Parece que nenhum dos três poderes se salva nessa crise. O executivo envolvido em denúncias de corrupção, apesar de as provas não atingirem a presidente da república; o congresso sendo presidido por um político que responde a processo no STF; o senado sendo presidido por um senhor cuja índole não parece ser das melhores; um judiciário com juízes que parecem querer fama ou virarem estrelas.
            No início do mês de março a justiça brasileira autorizou a condução coercitiva do ex-presidente Lula. É claro que ninguém está acima da lei, mas essa medida foi desproporcional, pois o ex-presidente nunca se negou a depor. Vazamentos de informações tanto da Polícia Federal, quanto do judiciário acontecem comumente. Liberações de escutas telefônicas envolvendo a Presidente da República, conseguidas de forma irregular, são alguns exemplos de como alguns juízes estão agindo, agindo como justiceiros, mas eles devem, ou deveriam, cumprir o que diz a legislação. No dia 17 de março, Lula assumia posse como ministro chefe da casa civil. A partir desse fato houve uma enxurrada de liminares que ora cassavam seu mandato, ora permitia que ele assumisse o cargo.Essa “confusão” durou até a decisão do ministro Gilmar Mendes do STJ cassar definitivamente a posse de Lula.
            No dia 13 de março houve diversas passeatas pelo Brasil pedindo o impeachment da presidente Dilma. O pedido de abertura de processo de impeachment da presidente Dilma foi aceito pelo presidente do congresso nacional em dezembro do ano passado. O que há de estranho nessa história é Eduardo Cunha, presidente da casa, só ter aceito o pedido de impeachment depois que o Partido dos Trabalhadores (PT) informou que não votaria a seu favor na comissão de ética no congresso. Até que ponto se pode considerar que Eduardo Cunha agiu com honestidade para aceitar abertura do processo de impeachment, ou se agiu por vingança, pois o mesmo já havia negado vários pedidos de processo contra a presidente Dilma. As passeatas do dia 13 de março se dizem apartidárias. No dia 18 de março tivemos passeatas pró Dilma, que foram chamadas por partidos que compõem a base governista e centrais sindicais ligadas ao PT. Essas passeatas mostraram claramente que o Brasil está divido.
            Essa atual dicotomia que vivemos poderia abrir espaço para uma direita ultraconservadora. A crise institucional que vivemos no momento faz surgir velhos fantasmas da nossa história. Um desses fantasmas seria a volta da ditadura militar no Brasil. O período da ditadura militar, que contou com o apoio de vários segmentos da sociedade civil brasileira, foi terrível para a sociedade brasileira:pessoas desapareciam, ou eram torturados, os direitos civis foram cassados. É um período negro na História do Brasil. E muitas pessoas que viveram esse período querem o retorno dos militares ao poder, jovens que também não viveram essa época se iludem com a “maravilhosa sociedade brasileira” dessa época. É triste saber que pessoas querem o retorno de uma ditadura que matou e torturou pessoas.
            Ademais, há políticos, eleitos que cumprem mandato, que defendem uma linha de governo ‘linha dura’, que é o caso do deputado Jair Bolsonaro, capitão da reserva do exército brasileiro. O deputado Jair Bolsonaro é conhecido por suas declarações machistas, racistas e homofóbicas. Ele já declarou que será candidato a presidente em 2018. Entre suas declarações está uma em que ele diz “bandido bom é bandido morto”, entre outras. Bolsonaro não se preocupa em como resolver o problema da criminalidade no Brasil e nem apresenta propostas que possam solucionar os problemas sociais do país. Além disso, se une a políticos tão retrógados quanto ele, como o deputado e pastor Marco Feliciano. Feliciano já demonstrou interesse em participar como vice na chapa de Bolsonaro em 2018.

            O atual cenário político brasileiro pode fortalecer a nossa democracia, contudo pode nos levar a uma crise sem precedentes, caso a direita ultraconservadora consiga chegar ao poder por uma via democrática. Caso eles consigam isso acharão que estarão legitimados a fazerem o que quiserem. 


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